LAMENTO SERTANEJO

 

LAMENTO  SERTANEJO

 

Meu jesuizinho, ocê qui é tão bão, qui inté morreu pregado na madeira por nóis, faiz um favô, pida pro vosso pai indireitá esse nosso Brasil.

Óia, eu sou um sertanejo dus antigo, prá mim, um fio du bigodi é lei, é palavra dada e cumprida.

Eu levanto cedinho todo dia, móio meus pé no orvaio da manhã prá juntá as vaquinha e tirá leite prá muié e os netinho. Trato das galinha e dos porco, tudo cum carinho.

Falando em galinha, as minha quando bota, faiz um baruião danado, inté parece que tão botando ovo di ema. Uma gritaria sem fim. Diferente daquelas branquela qui vive presa a vida inteira, comendo  sem pará e quando bota nem pia. Acho qui é prá num acordá us dono.

Tá tudo muito diferente. Inté as música sertaneja perdero o sintido. Só fala em dor di corno.

Gosto daquelas qui canta as beleza du sertão, das coisas bunita da roça i do luar...

Otro dia eu tava com minha muié, sentadinho no tronco do jatobazeiro qui tem na frente di casa, tomando uma pinguinha com umburana e ela fumando um cigarrinho di paia, quando apareceu no céu aquela lua lindona, istufada di grande. Fiquemo oiando São Jorge guerrero matando o dragão...

Oceis cridita qui meus netinho fala qui é mintira,coisa de véio doido, bobage di caipira. Ara, sô...

Meu jesuizinho eu tô pidindo prô sinhô intercede junto a vosso pai, prá vê si acaba cum tudo qui é errado nesse mundão.

Oceis aí  di cima já oiaram tudo qui tá acontecendo?

Já oiaro prá baiXo das nuvem i ispiaro tanta coisa ruim, sem pé, sem cabeça qui apareceu prá nóis.

Parece coisa do demo.

É homi cum homi, muié cum muié, cada doença di dá medo. Virgi santa.

Óia só. Nóis na roça trabaia, trabaia, pranta e cói os mantimentos prá todo mundo cumê e quasi num ganha nada.

A gente si mata di sol a sol e os banco comi nosso dinheirim cum esses juro danado di arto.

Si um pobre fizé arguma coisa errada´vai pro xilindró i os poderoso nem liga quando isfola a nação.

É uma maracutaiada sem fim desses pulítico sem vergonha, qui vem nas nossa casa prometendo mundo i fundo si ganhá as eleição.

Dipois qui ganha, some. Só vorta na outra eleição, i nóis num aprende.

Num gosto mais di vê as nutícia da televisão, purque num  tem nada qui presta. Só si fala di crime, robaiera, duença.

Umas coisa dum povo barbudo qui corta  o pescoço dos otro cum faca, como si fosse fazê galinha ao molho pardo. Credi em cruiz.

Meu jesuizinho, óia prá nóis, proteja tudo quanto é gente da roça i da cidade, desamparado, mais qui são bom i honesto...

Pode inté se pecado, mais manda uma daquelas praga do Egito prá esse povo ladrão. Qui num respeita seus eleitor, qui num respeita o povo du bem.

Uma praguinha tipo assim qui tudo di errado qui eles fizé, vai caindo um pedaço da mão, inté ficá só o cotozinho.

Si u cara vortá a se bão di verdade, vai nascendo di novo, mais tem qui ficá bão mermo.

Mi perdoa meu jesuizinho mais ocê pricisa indireitá esse brasilzão.

Cabá cum essa bagunça, essa ladroage, essa bandidage i sendo bãozinho como o sinhô é, num vai resorvê.

Tem qui pregá o chicote divino neles inquanto tão vivinho, purque morto num vão senti no couro.

Agora vô drumi, cansado da lida, mais feliz...

Discurpa si eu fiz errado, mais eu tinha qui falá.

(04/07/2017)

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