CONVERSA COM MEU NETO CAETANO

 

                        ¨CONVERSA COM MEU NETO CAETANO¨

 

 

Um dia, num futuro não tão distante assim, sentarei com meu neto, num banco de praça, à sombra do ipê que plantamos e contarei a ele minhas estórias.

Passagens hilárias ou não, que o farão lembrar do seu ¨abuelo¨ branquelo que o ama muito.

Contarei da visita de seus pais para falarem da gravidez que geraria este lindo ser. Eu disse de sopetão: É menino!

Não sei qual a convicção que me levou a isso, só sei que comecei a amá-lo a partir daí.

Quero que você saiba das minhas aventuras e desventuras.

Começarei falando de uma lembrança de quando eu era muito pequeno.

Meu pai me aplicou uma injeção de penicilina e eu quase morri. Só lembro dele me levando a cavalo para o médico da vila. Me salvei, descobriram que eu era alérgico àquele medicamento.

Já fase de adolescente, eu e meus irmão e primos costumávamos fazer arte no pomar.

Subimos num pé de fruta do conde para fazer nossas necessidades e o galho em que eu estava quebrou.

Caí sobre a cerca de madeira do chiqueiro e uma lasca de angico enfiou na minha perna.

Minha avó, rasgou uma tira de pano velho, embebedou-o numa mistura de cânfora, fumo de corda e urina de menino, enrolou-o na minha perna e pronto.

Não demorou muito para eu estar fazendo arte de novo.

Subíamos nas laranjeiras, nos ajeitámos num galho e chupávamos tantas laranjas quanto aguentávamos.

No final, era só contar os bagaços para ver quem era o campeão.

Numa outra ocasião, uma sexta-feira santa, depois da procissão, eu e meu irmão Tuta, pegamos um monte de velas acesas no pé do cruzeiro e fomos fazendo um caminho iluminado até nossa casa no sítio.

De repente avistamos um cavaleiro ao longe, vindo vagarosamente com sua montaria. Nos escondemos no meio do capinzal e quando ele se aproximou, gritamos bem alto, assustando os dois. O cavalo corcoveou e jogou o cavaleiro no chão.

Corremos prá casa, começamos a varrer o quintal. Santa inocência. Quando avistamos nossa mãe com uma varinha na mão, já gritamos que não fomos nós. Não teve jeito. Tomamos uma baita surra prá aprender.

Mudamos para a cidade e fomos mudando o estilo de vida.

Estudos, o primeiro emprego, a primeira namorada...

E a vida tomou outro rumo.

Formado na faculdade, fui trabalhar noutro estado.

Conheci um mundo novo e novas aventuras vivi.

Me lembro de uma passagem quando no aniversário da filha de um amigo, conversávamos animadamente sobre quase tudo.

_ Ah, meu pai comprou um carro do ano. Superpotente, dizia um.

_ O meu comprou uma mansão, dizia outro.

E o desfile de (in)verdades prosseguia.

Cada um mais papudo que o outro e o seu abuelo quietinho, só ouvindo, até que um dos presentes perguntou:

_ E o seu pai, o que comprou, professor?

Coçou a barbicha, olhou para o céu buscando uma resposta. Era de família humilde, seu pai trabalhava para o sustento da prole que não era pequena, mas emendou:

_ Olha, meu pai comprou uma égua, boa de montaria, ótima para carroça e arado.

Silêncio na roda de conversa. Mudaram de assunto rapidinho.

Você crescerá saudável e cercado de amor, pequeno Caetano.

Terá menos dificuldades que seus avós, mas não estará isento delas.

Sua inteligência e sagacidade o farão um grande homem.

Você é a semente que germinou e está crescendo bem cuidada.

Nós já somos a árvore frondosa que perde um pouco da força a cada dia ou ventania, mas ainda fortes o suficiente para amá-lo cada dia mais.

P.S. outras histórias contarei verbalmente.

 

 

ACESSEM: Mywaygregio.blogspot.com

 

Comentários