BEM EU

 

 

                                              ¨BEM EU¨

 

Nascera inquieto. Antes do tempo e de seu tempo.

Não gostava de ficar parado.

Dizia sua mãezinha que se mexia tanto que não parava enfaixado (antigamente as crianças eram enfaixadas após o nascimento, sei lá prá que).

Seus olhos sempre procuravam algum ponto no horizonte.

Cresceu assim.

Sempre procurando o que fazer.

Como morava no sítio, gostava de plantar árvores, flores, cuidava dos animais. Se preocupava com a natureza.

Gostava da geografia das coisas e das histórias que ouvia ao redor da fogueira, sentado no terreirão de café, com primos e amigos em noites enluaradas.

Quando deixaram a roça, acabou fazendo o que mais gostava. Ser professor de história.

E suas histórias eram sempre cheias de vida.

Levava para as aulas sementes de árvores que colhia nos seus andares e falava da importância da natureza para o futuro.

O que ele ensinava, ele praticava.

Tinha orgulho de dizer que muito do que plantou nas avenidas ou praças, alimentava a humanos ou pássaros.

Quantos tombos tomou ao subir em árvores. Nunca quebrou um ossinho sequer.

Já setentão, continuava sua inquietitude e desta vez caiu prá valer do pé de abacate.

Não foi motivo para parar, deu um tempo e continuou fuçando a terra, feito um tatu do mato.

Plantava seus sonhos nas sementes que colocava na terra.

Replantava as mudinhas na rua ou praças, sempre árvores frutíferas.

Em cada folha que via brotar, imaginava a beleza que seria.

Devaneava imaginando que o mundo seria melhor a cada dia que passava.

Sofria quando via suas plantinhas serem pisoteadas ou arrancadas por quem não se preocupava com o meio ambiente.

Achava que as escolas deveriam ensinar o respeito à natureza e seus elementos.

Amanhã planto mais uma árvore ou semente, era sempre sua preocupação.

Na sua inquietitude imaginava que quando morresse, não iria ficar lá no próprio velório quietinho no caixão.

Ficaria batendo papo com os presentes até chegar a despedida final.

Aí descansaria.

Desconfio que não. Sairia correndo e desapareceria em algum mato se transformando numa árvore.

Seria o final perfeito.

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